Somos assim: somos o que pensamos, o que sentimos...e somos acima de tudo, aquilo em que acreditamos!
Nossos ídolos são nossos espelhos...refletem nossa alma, e nos levam ao encontro de nossos desejos, nossos sonhos, nossas fantasias, nosso eu mais profundo...e nos tornam muitas vezes mais fortes, porque acreditamos neles!
Somos assim: sedentos por nos apaixonar, por acreditar, por nos sentir vivos...e é isso que nos torna seres tão incrivelmente sedutores e apaixonantes!

terça-feira, 10 de abril de 2007



A melhor saudade
É incrível como as idéias são autônomas e surpreendentes...elas parecem ter vida própria, independente de quem as hospede! As minhas pelo menos, são assim, me pegam sempre de surpresa, sem hora nem momento certo...me vêm no meio da madrugada, na hora do banho, na rua, no melhor do sono, e até no meio dos meus sonhos, feito intrusas, e sempre traiçoeiras...parecem dizer: "agarre-me se puder!"
E se não consigo agarrá-las naquele momento, elas se vão, e raramente torno a encontrá-las, ou encontro modificadas, com outro teor, não aquele que se perdeu...Eu queria ter um captor de idéias...algo que me permitisse prendê-las, no momento em que me vêm, até que terminasse meu sono, meu sonho, meu banho, e então nada se perderia, nem as idéias, nem alguns bocados de momentos bons!
Mas não é sobre as idéias que quero falar aqui...é que a idéia do texto hoje, me veio assim, de súbito(não um mau súbito, felizmente!), mas de repente, no melhor do sono...depois de uma noite, de apenas duas horas! Curta, mas produtiva...vá lá, isso já vale o trabalho de abandonar a cama quentinha, e me postar aqui, em frente à minha folhinha virtual amiga!
Para falar dos anos, da idade, das saudades, do maior acervo da história...nosso acervo pessoal!
Outro dia, um amigo, que escreve (não como eu, eu brinco de escrever,ele leva a sério o seu dom), falou sobre um carro que fez parte da sua vida...uma Brasília(não me lembro se era amarela, mas era uma Brasília), e a saga do carro que parecia o dos Flintstones, movido à pesadas, mas que lhe serviu em alguns momentos, e que parecia ter sentimentos, parava se lhe criticassem, e eu me lembrei de uma história parecida, que vai me dar o gancho prá desenvolver esse texto.
Eu tinha um amigo que tinha uma Variant(e), nem me lembro qual o certo, na verdade era um esqueleto de carro já...uma coisa!
Mas andava, e levava a família onde quisesse, São Paulo, à fora ou à dentro...me levou ao mercado um dia; um desses dias fatídicos, que ficam prá sempre nesse nosso acervo pessoal! Uma chuva que Deus mandava, torrencial, típica de Sampa...muitas e muitas enchurradas que mais pareciam lagoas, uma delas no nosso caminho...nos aproximando, fomos vendo pelo caminho(parados e roncando) Gol, Golf, Vectra, Blazer, tudo novinho, bonitinho, e lá, paradinho, esperando uma alma piedosa que se aventurasse debaixo do mundo que caía a dar o famoso "empurrãozinho" ...e nós? ah, que orgulho, de narizes empinados, dentro do pobre esqueleto ambulante, com água cobrindo nossos pés, e passando na boa, deixando todas as beldades para trás, roncando de inveja!
Idade e beleza são sinônimos de qualidade e vitalidade? Desde quando?Temos a mania de achar que tudo que é novo, tem mais beleza, é melhor, é mais valioso! Que nada, engana-se quem pensa assim...a vida nos mostra isso todo o tempo, só não vê quem não quer.
Desde os vinhos, que são mais saborosos e valiosos, à medida que envelhecem, até as grandes idéias da história, que, quanto mais o tempo passa, mais se descobre e se faz, através delas!
Quando Einstein descobriu sobre a teoria da relatividade, ou quando Darwin escreveu sobre a seleção natural das espécies, suas idéias foram revolucionárias, tiveram uma repercussão incrível, mas o mundo teria sobrevivido sem elas, estaríamos anos luz atrasados, mas estaríamos vivos...e hoje? O que faríamos sem essas descobertas maravilhosas? Quanto se inventou e se descobriu a partir dessas idéias e descobertas tão antigas?
Meu filho de onze anos, hoje se queixa de dores no corpo depois de uma aulinha de educação física, não se abaixa prá pegar coisas no chão, quando se abaixa, geme, feito velho...eu tenho 36, e tenho mais disposição e vitalidade do que ele, tá bom, tenho dores no corpo, sou sedentária...mas gosto de andar a pé, raramente uso elevadores, durmo tarde e acordo cedo(quando quero)rsrs; minha mãe, com 65, andava a pé, subia em cadeiras prá faxinar os móveis, sentava-se no chão, prá brincar com os netos, lia histórinhas, costurava, fazia caminhadas, ia à missa sózinha e a pé, tinha uma vitalidade invejável; minha avó, morreu com mais de 80...fazia crochê, assitia futebol, subia nas cadeiras prá mexer no armário, tomava vinho, contava histórias, era totalmente lúcida e não tinha sequer uma estria, nem celulites, e teve 10 filhos!(nossa, que inveja, e que saudades!)
Se pudessemos ler as rugas de um ancião, este seria o maior acervo da humanidade...descobriríamos nelas, o segredo da vitalidade, a beleza da juventude, não cronológica, mas interior...a juventude do coração, essa sim, é que nos torna jovens, mesmo depois dos 80.
Até a saudade tem mais sabor quando envelhece...a saudade recente, dói, machuca, nos entristece...com o passar do tempo, dos anos, ela se transforma, passa a ter cor, sabor, cheiro...e torna-se branda, gostosa, prazeirosa!
Hummm, a casa da minha avó, tem cheirinho de café torrado, na torradeira...uma peça antiguíssima, pesada, onde se colocava os grãos do café, depois de secos, sobre um fogão à lenha, ou algo improvisado com uma lata de 20lts, com fogo, tinha uma alça que girava lá dentro, fazendo os grãos mexerem, num barulho gostoso, feito um chocalho...e de onde saia um aroma, nossa, que aroma...nada se compara! Aquilo inundava a casa, enchia o quarteirão, ia longe! E os biscoitos de polvilho? Feitos quase que artesanalmente, cheios de mistérios, moldados com as mãos já trêmulas, mas firmes...não podia comer antes de fritar tudo, senão a gordura sumia...era um mistério aquilo, mas era uma maneira de espantar a molecada, que ficava por ali, à espera do teco ainda quente, que parecia ser mais gostoso do que a baciada já pronta!
Esse cheiro fica, é nosso, está em nosso acervo pessoal, pronto prá sair de lá e nos fazer viajar, sempre que a saudade aperta, e o coração precisa se renovar!
O passar dos anos, ao contrário do que muitos acreditam, não nos torna menos bonitos, ou menos capazes...nos torna sim, mais ricos, mais sabedores dos mistérios da vida, mais sensoriais, e menos céticos, mais criativos e menos curiosos, mais lúcidos, mais autênticos, mais vivos do que nunca!
"Esses moços, pobres moços, ah, se soubessem o que eu sei..."

Um comentário:

Zero disse...

Que lindo isso minha amiga, putz, adorei. Viajo sempre nessas palavras que vc escreve e leio sempre mais de uma vez. Beijócas minha linda...