Somos assim: somos o que pensamos, o que sentimos...e somos acima de tudo, aquilo em que acreditamos!
Nossos ídolos são nossos espelhos...refletem nossa alma, e nos levam ao encontro de nossos desejos, nossos sonhos, nossas fantasias, nosso eu mais profundo...e nos tornam muitas vezes mais fortes, porque acreditamos neles!
Somos assim: sedentos por nos apaixonar, por acreditar, por nos sentir vivos...e é isso que nos torna seres tão incrivelmente sedutores e apaixonantes!

sábado, 22 de dezembro de 2007

Crisálida adormecida


Como a larva deselegante
asquerosa e sem beleza
torna-se bela e viçosa
num milagre da natureza

uma crisálida adormecida
torna borboleta e ganha vida

Assim também eu nos teus braços
sou crisálida em sono profundo
teu amor transforma em beleza
as dores que carrego do mundo

teus carinhos me acalantam
teus olhos velam meu sono
teus lábios proferem versos
que me tiram do abandono

acordo banhada em adornos
ganho cor, brilho e asas
me liberto do teu corpo
mas dele fiz minha casa

Bato as asas pra te encantar
faço fita pra te ganhar

Não quero sair dos teus meios
nem quero voar pro infinito
estou presa aos teus enleios
pro teu amor lanço um grito

Sou crisálida em sono profundo
sou borboleta perdida em teu mundo

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Apesar de...é Natal!

Tem um menino na rua
pés no chão, cachimbo na mão
e é natal no mundo (da lua?)

Tem uma menina com sua boneca
trazendo um filho na barriga
e o natal enfeitando a avenida

Tem uma anciã catando latinha
pra fazer a ceia da filharada
é natal, a cidade toda enfeitada

Debaixo da ponte, de papelão e jornal
tapetes persas, colchões King size
e tem festa, ali também é natal!

Natal é tempo de que?
de festa, comilança,alegria!
De violência nas ruas
de agressões e abusos
de bebedeira e luxúria
de excesso de hipocrisia!

Natal não é vinte e cinco
Natal não é mais valia

Nascer é ter nova vida
é renovar esperanças
é ver o futuro estampado
nos olhos de uma criança

Natal é nascimento
e se nasce todo dia!




segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Dueto



O tempo parece ter parado
coração em descompasso
O pensamento ansioso e revolto
estou só...em mim sinto teu corpo

Desejo te encontrar,você não vem
Quero de novo sentir tua presença
seu olhar a me queimar a alma
sua pele macia que acaricio
seu toque suave me tirando a calma

A porta se abre, a brisa te traz
Um arrepio gostoso me invade
sinto teu cheiro, te sinto mais perto
Teu aroma doce e inebriante
em ti me perco, és o meu deserto

Meus olhos se enchem de emoção
nossos corpos em total sintonia
estamos entregues à paixão
absortos em plena maresia
eu sou teu mar, você, minha calmaria.

O tempo parece ter parado de novo
Mas agora estás aqui...
(Composição em parceria com meu querido amigo José Roberto Vaiscenkovas)

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Dia da consciência branca


Da minha terra saí
para da tua cuidar
e dela só consegui
o leito prá me deitar

Corpo dolorido
sangue escorrido
nas chibatas e no tronco
no duro castigo

Sangrei por nada
sangrei por tudo
e com o vermelho do meu sangue
escreveste sua históri
ae ganhaste a sua glória.

Fui o burro de carga
fui a negra da senzala
fui a ama de leite
fui a amante indolente
fui o negro fujão
fui o capacho, o estorvo
fui o liberto abusado
só não fui nunca gente
muito menos respeitado.

A honra e a dignidade
à força foram resgatadas
Por Zumbi, negro bendito
um líder do negro sofrido.

Hoje tenho a certeza
meu sangue não tem nobreza
mas corre nas minhas veias
o mesmo vermelho vivo
que tantas vezes limpei
nas regras e curativos
do branco ingrato e altivo.

De nada vale o orgulho
a arrogância o esnobismo
na hora da dor e da morte
não temos cor nem valia
somos pequenos e pobres
incapazes e sem valentia.
O pó de que fomos feitos
na vala profunda um dia
será a coberta do leito
donde encerra nossa agonia.
Imagem: Café - Cândido Portinari







terça-feira, 13 de novembro de 2007

Sensações

Ouço vozes espalhadas por minhas veias, pressinto diversos odores. Pulsam dentro de mim os mais variados sons. O vento assovia uma canção, dura, seca, um grito talvez desesperado de quem vê o que não é visível.
Na rua sem vida, vidas que se cruzam nas idas e vindas sem destino certo, seguindo um destino traçado por mãos alheias.

"Meu destino" é um equívoco. Não tracei, não escolhi nem posso me desvencilhar, marcado a ferro no ponto mais inacessível aos meus olhos. Dele nada sei, nem se o é de fato.

Ouço rugido de motores, cheiro o diesel queimado e pútrido de animais inanimados guiados por mãos de animais racionais, irracionados pelo que é inanimado mas rege a ordem da vida animal racionalizada.
Confusão? Conflito de idéias, sangue adulterado pela mistura (i)racional do que é ou não natural e saudável à vida que dizem ser minha.


"Minha vida" também é um equívoco. Não a tenho em minhas mãos, não sou dona de algo sobre o qual não possuo pleno controle, como me veio, pode me ser tirada. No máximo me foi gentilmente cedida, e do uso que faço dela depende se segue ou expira.


E EU sigo sem certezas, repleta de marcas, de vincos, de interrogações e falsas prerrogativas que me concedem intencionalmente a fim de que eu me sinta metaforicamente dona do próprio nariz. Este sim é meu. No sentido mais exato e real. Posso mandar arrancar, ou ornar-lhe com pingentes. E metê-lo onde bem entender. Ou simplesmente respeitá-lo como um bem único e intransferível, e deixar que me ajude a descobrir aromas e sensações que me façam sentir viva e dona de mim mesma. Mesmo que eu não o seja.
Já estou humanamente habituada à ilusão.

A crueldade do que é real fere mortalmente o SER humano.