Somos assim: somos o que pensamos, o que sentimos...e somos acima de tudo, aquilo em que acreditamos!
Nossos ídolos são nossos espelhos...refletem nossa alma, e nos levam ao encontro de nossos desejos, nossos sonhos, nossas fantasias, nosso eu mais profundo...e nos tornam muitas vezes mais fortes, porque acreditamos neles!
Somos assim: sedentos por nos apaixonar, por acreditar, por nos sentir vivos...e é isso que nos torna seres tão incrivelmente sedutores e apaixonantes!
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terça-feira, 27 de maio de 2008

Entalhe


Vida na roça é dureza. Mãos calejadas, coração que sangra, sol que escalda a fronte fazendo doer o não ter.
Sol que se levanta antes, Lua que se adianta. Cantoria no terreiro que redime o pouco que sobra do corpo cansado e surrado.Sob a luz da lua, vão se entoando as amarguras, tristezas, desalentos, e corpo e alma ficam um pouco mais leves.
Passa o tempo, a vida urbana substitui e ajeita o sem jeito da roça. Vêm os filhos, os netos, a rotina, a solidão da cidade, cimento armado sem verde, sem veias, sem cheiro, sem sabor.
Fica o gosto da terra, a lembrança doída dos árduos tempos, ruins e malfadados, trocados pela esperança de vida nova, com cheiro de uma saudade que não se compreende.

A herança roceira, caipira, não abandona o coração cansado do sertanejo novo, urbanizado. Chega um dia, em que busca-se o retorno, não ao chão que se deixou para trás, mas às raízes guardadas na memória.
Entre o asfalto escaldante e o movimento incontido das grandes cidades, busca-se um pedaço de terra, algo que aquiete o velho coração insatisfeito com as novidades da vida "muderna". Vida nova, com cheiro de mato, era isso que se queria o tempo todo. Era isso que minha mãe sonhava, e foi esse sonho que a vi cultivar durante toda minha vida.
No terreno ainda cheio de mato, o sonho vai tomando forma. Aos poucos, as mãos cansadas e ansiosas, vão moldando o que será um canto para conter lágrimas, cantorias, cheiro de roça, comida caipira. Coisa boa.

Minhas mãos também se cansaram nessa peleja, muitas vezes. Mas não doíam, era um cansaço satisfeito, com cheiro de chuva fresca, terra molhada, e som dos cantores da floresta. Não tenho no meu baú de lembranças som melhor do que esse.
Nas visitas aos fins de semana, podíamos acompanhar o andar da "carroça".
Paredes sendo levantadas, pés de frutas, aguadas. Um veio d'água fervilhando, vida que saltava aos olhos, e ,que pelas mãos de minha mãe, ia se abrindo e apontando em direção ao rio. Um sonho que se erguia entre rugas que se formavam.

Na matula que se aprontava para a viagem, marmitas prontinhas. Não havia fogão, nem gás, nem lenha ainda. Na hora de saciar a fome, reunía-mo-nos na escadinha da cozinha, degraus rústicos e mal feitos,comida caipira, cheirosa e saborosa. Como saboroso era aquele momento.

De repente, uma surpresa desajeitada. Na correria de aprontar-se, mamãe esqueceu os talheres. Como é que se come? Dúvidas tipicamente urbanas, ao que a velha vózinha, do alto de sua sapiência matuta, responde com um leve riso, e um tanto de ironia de quem se ri do despreparo dos mais jovens.

Senta-se à porta, aponta ao fundo do terreno cheio de mato, e pede, quase ordenando: "Cumpade, pega aquele bambu lá no fundo!" Troca de olhares indagando, e o cumpade(meu paizinho) obedece ligeiro que só, não convém triscar com a sogra.
Em poucos minutos, a vida mostra que a arte está onde há alma, memória, e sentido de ser.
As mãos calejadas e enrrugadas pelo tempo, tomam uma pequenina faquinha e vão, devagar e encantadoramente moldando do pedaço de bambú, pequenas colheres. Uma à cada um, personalizadas e únicas. Lindo trabalho artesanal, aprendido na escola da vida. O melhor dos sabores, a comida mais gostosa, um momento que marca minha memória, finca pé no meu coração, deixa cheiro e gosto de saudades.

E a vida segue seu rumo. Penso nos meus filhos, e nos filhos dos meus filhos,que vão aos poucos perdendo pedaços de uma história que não está nos livros. Talvez esteja um dia, mas as letras são incompletas, registram as memórias, mas não as tem. E não mostram o que está nas entrelinhas, muito menos o que há depois das reticências.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Sensações

Ouço vozes espalhadas por minhas veias, pressinto diversos odores. Pulsam dentro de mim os mais variados sons. O vento assovia uma canção, dura, seca, um grito talvez desesperado de quem vê o que não é visível.
Na rua sem vida, vidas que se cruzam nas idas e vindas sem destino certo, seguindo um destino traçado por mãos alheias.

"Meu destino" é um equívoco. Não tracei, não escolhi nem posso me desvencilhar, marcado a ferro no ponto mais inacessível aos meus olhos. Dele nada sei, nem se o é de fato.

Ouço rugido de motores, cheiro o diesel queimado e pútrido de animais inanimados guiados por mãos de animais racionais, irracionados pelo que é inanimado mas rege a ordem da vida animal racionalizada.
Confusão? Conflito de idéias, sangue adulterado pela mistura (i)racional do que é ou não natural e saudável à vida que dizem ser minha.


"Minha vida" também é um equívoco. Não a tenho em minhas mãos, não sou dona de algo sobre o qual não possuo pleno controle, como me veio, pode me ser tirada. No máximo me foi gentilmente cedida, e do uso que faço dela depende se segue ou expira.


E EU sigo sem certezas, repleta de marcas, de vincos, de interrogações e falsas prerrogativas que me concedem intencionalmente a fim de que eu me sinta metaforicamente dona do próprio nariz. Este sim é meu. No sentido mais exato e real. Posso mandar arrancar, ou ornar-lhe com pingentes. E metê-lo onde bem entender. Ou simplesmente respeitá-lo como um bem único e intransferível, e deixar que me ajude a descobrir aromas e sensações que me façam sentir viva e dona de mim mesma. Mesmo que eu não o seja.
Já estou humanamente habituada à ilusão.

A crueldade do que é real fere mortalmente o SER humano.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

É tarde amor...

Dizem que o amor não tem idade. Dizem que envelhecer hoje não é grave. Mas envelhecer e amar, conhecer e reconhecer o amor depois de uma certa idade é talvez a melhor tradução do que chamamos felicidade.

Há quarenta e cinco anos atrás, numa pequena vila rural do interior de São Paulo, casavam-se José Felício e Anastácia. Dois jovens de famílias muito humildes, ele com vinte e um anos, ela com vinte.Tinham no casamento meio arranjado e forçado, a esperança de constituir família, sair do campo e tentar a vida na capital.

Com a cara e a coragem, uma pequena bagagem arrumada em trouxas, Nastácia (como era chamada), embuchada pelo Filício (o moço mais regateiro da vila) partiram rumo à grande São Paulo. Na rodoviária da cidade mais próxima, contavam o dinheiro minguado, suficiente para duas passagens, dois pães com manteiga e duas médias.

A ida estava garantida. Chegando lá, a sorte haveria de prover seu sustento.

Não foi fácil, tal qual a história bonita que ambos ouviram durante toda sua vida sobre um menino chamado Jesus, muitas portas lhes bateram à cara, muitos nãos foram ouvidos, por muitas noites dormiram ao relento, aqueceram-se sob jornais e alimentaram-se de migalhas da bondade humana.

Entre catadores de lixo, Filicio aprendeu uma profissão. Entre o lixo acumulado debaixo de uma ponte seu filho veio ao mundo. Filicio, moço regateiro e namorador, chorou pela primeira vez uma dor sentida. Viu nos olhos de Nastácia, a vida que lhe fora roubada e que agora lhe era devolvida, em seus braços, gritando pelo leite que não vinha. Nastácia estava doente, fraca e desnutrida, seu leite não era suficiente para matar a fome do filho. Ela também chorou. Um choro mais dolorido do que o parto que lhe havia rasgado o ventre.

Por muitos meses Nastácia esteve entre a vida e a morte, e seu bebê cresceu feito as flores do campo. Sem jardineiro, sem cuidador, apenas pela força da natureza, seguindo o rumo natural das coisas. Passava de mão em mão, dividia o chão com insetos e animais, tomava leite azedo, ou misturado com água, e vivia, e crescia, e ninguém sabia como.

Aos poucos Filicio foi aprendendo as malícias da cidade grande, as malandragens da rua, Nastácia foi arribando, ajudando também na catação, engravidou mais uma vez, e outra, até encontrar uma alma caridosa que a orientou sobre métodos de "evitá fio".

_ Ô homi, compra lá a tal da camisinha, num quero embuchá de novo não, agora que as coisa tão meiorando. E lá foi o Filício para a farmácia, comprar a tal camisinha.

_ Ara, que raio de camisinha será essa? Camisinha que evita fio? Nunca que vô acreditá nisso!

Mas ele acreditou depois que a agente de saúde ensinou à Nastácia como se usava a tal camisinha. Achou esquisito, resistiu, mas era por uma boa causa, e acabou cedendo.

Aos poucos a vida foi se ajeitando. Ambos eram esforçados, apesar de ainda jovens, vinham de um lugar onde logo cedo se pegava na enxada. Sabiam trabalhar, sabiam lutar pelos seus sonhos. E lutaram.

Não enriqueceram, Filicio arranjava trabalho como servente em obras, construções, Nastácia arranjou vaga na creche para as crianças e foi fazer faxina em casas de madames. Alugaram um quarto e sala num bairro bem afastado do centro, mas bem melhor do que a ponte que os abrigou por tanto tempo.

Criaram seus filhos com dificuldade. Dos três, apenas um sobreviveu à violência e as agruras daquela vida marginal. Os outros não tiveram a mesma sorte. Por duas vezes, Nastácia e Filicio choraram a dor mais doída de suas vidas. Por duas vezes pensaram em desistir.

Mas havia um terceiro motivo que os impulsionava. O filho mais velho tinha sonhos, era diferente, queria ser alguém na vida, e lutava por isso. Não usava os pedaços de jornal para enrolar o baseado, lia os pedaços de jornal. Não roubava as frutas na feira, prestava serviços aos feirantes e ganhava frutas e legumes que trazia para casa. Não matava aulas na escola, sempre era o último a sair, acompanhava a professora o máximo possível, tirando dúvidas, contando causos.

Francisco (era esse seu nome) tinha sonhos. Divagava conversando com os pais, que, vencidos pelo cansaço cochilavam ouvindo o menino contar histórias sobre reinos e princesas, batalhas e príncipes. Francisco continuou sonhando, trabalhou pesado, deu orgulho e satisfação aos pais. Casou-se e teve dois filhos.

Nastácia e Filicio voltaram a sorrir quando os netos vieram. Voltaram a acreditar na vida. Com o passar dos anos Francisco pôde estudar o suficiente para arranjar um emprego melhor. Recebeu uma proposta de trabalho em outra cidade. Não se podia recusar uma sorte dessas.

Nastácia e Filicio, choraram sózinhos. Um choro de tristeza pela separação, mas ao mesmo tempo de satisfação por ver que seu menino estava se tornando alguém na vida. Que seus netos teriam melhor sorte do que eles, e do que os outros filhos que a vida lhes havia arrancado.

A despedida não foi fácil, deixar os netos que viram crescer e que tantas vezes alegraram seus dias partirem foi uma dor muito grande. Mas eles compreendiam que aquele seria talvez o maior bem que poderiam fazer por eles. Abençoaram o filho, a nora e os netos, deixaram que se fossem, ergueram os olhos em prece e pediram à Deus por aqueles à quem tanto amavam. Conservavam ainda a fé apreendida no seio materno, talvez seu único sustento em todas as durezas pelas quais haviam passado.

Agora a pequena casa tornara-se imensa. Em cada cômodo rastros e lembranças dos seus pequenos. A solidão compartilhada fez com que os dois chorassem juntos, abraçados, como nunca fizeram. Deitaram-se mais cedo, não quiseram ver a novela de todos os dias.

Na cama começaram a relembrar momentos de suas vidas, desde o baile em que se conheceram até os momentos mais difíceis.

_ Chega prá cá muié, agora semos só nóis.

Filício olhou ternamente o rosto de Nastácia, acomodando-a em seus braços. As marcas do tempo faziam caminhos em sua face, mas a beleza matuta ainda estava ali, a morenice que lhe prendeu e encantou, ela ainda conservava. Acariciou seus cabelos, maltratados e já bem grisalhos, sentiu, como não sentia a anos, desejo por sua mulher. Com as costas da mão já enrugada e calejada, roçou sobre a blusa os seios de Nastácia, que maltratados e flácidos, mas ainda cheios de vida, responderam imediatamente às carícias, e logo ficaram mais salientes provocando ainda mais o desejo de Filício.

Num arrepio Nastácia também sentiu desejo, mas não compreendeu.
Estranhou o que acontecia, há muito que seu marido não a procurava. Arriscou num sussurro "É tarde am..." e foi calada por um beijo, quente e úmido, talvez o melhor de sua vida.

Beijaram-se ardentemente, entrelaçaram-se, perderam-se em carícias há muito esquecidas, entregaram-se àquele momento, e amaram-se.

Pela primeira vez, em quarenta e cinco anos.


"As pessoas envelhecem e morrem. O amor sobrevive."




quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Surra de peia

A passagem que eu conto agora
Não tem príncipes nem reinos
não é de amor essa história,
mas tem amor nos enleios.

Num sertão dos cafundó
numa terra esquecida
vivia um pai muito só
seu filho era sua família.

Esses pobres, pai e filho,
de tristezas faziam dó
abandonados pelo destino
que da vida apertava o nó.

A seca cruel e medonha
dizima muitas famílias
naquela a dor foi tamanha
levou mãe, e duas filhas.

O pai em desatino de morte
garrô firme na bebedeira
tentando afogar a má sorte
e a tristeza derradeira.

O filho sem muita certeza
daquela ventura ingrata
fazia danura e proezas
e caía na peia e chibata.

E assim a vida passava.
Entre muitas surras de peia
muitos porres, chibatadas,
e a miséria que aperreia.

Mas o destino maltrata
às vezes até exagera
e em outras ele desata
nós que ninguém espera.

Numa das suas mazelas
dá uma lição nesses dois
ensina que quem cria feras
colhe feridas depois.

Num desses embates danados
o menino se vê em falso
o pai na cachaça afogado
ajeita a peia no encalço.

Corre desajeitado,
sem galeio nem firmeza
mas tá destinado ao fato:
Tem castigo essa proeza.

Grita o pai embriagado:
Arre, que dessa vez eu te cato!
vem aqui seu renegado!
É hoje que eu te mato!

No fundo do sítio seco
duas grandes amoreiras
servem sempre de alento
nessas horas derradeiras.

Corre moleque danado
cria asas nesses pés
sobe e espia calado
que hoje acaba esse revés.

O que houve não se sabe
não concebe explicação
não tem dotô e nem padre
que responda essa questão.

A peia do pai malvado
contra ele se voltou
e o filho agora assustado
sua sorte espiou.

Era tamanha a aberração
do pai se batendo sózinho
que o filho de coração
sentiu a dor do paizinho.

Vendo escorrer a sanguera
dos cortes que a peia fazia
desceu logo da amoreira
e viu o pai na agonia.

Arrastou seu pai de mal jeito
o peso era demais prá um mirrado
era bem grande o sujeito
e o filho lhe deu cuidado.
Limpou suas feridas
fez curativo ajeitado
acarinhou o paizinho
sentindo remorso o coitado.

Depois desse episódio
a miséria não estancou
as feridas e o ódio
do peito foi que apagou.

O amor do pai e do filho
naquela dor partilhada
foi como a flor do sertão
que floresce em meio ao nada.

E os dois em meio à miséria
de uma vida muito triste
agora têm a certeza
de que o amor resiste.

Tem poder de curar dor
tem força prá suportar
só quem vive sem amor
é que morre sem lutar.

Não carece de aplaudir
nem fazer exaltação
o que lhes contei aqui
são coisas do coração.

É só uma história triste
com final mais a contento
é só o amor que insiste
em não ver mais sofrimento.
(A imagem que ilustra o texto é Retirantes, de Cândido Portinari.)

terça-feira, 23 de outubro de 2007

O Milagre


Em cruz, lanço-me suavemente ao sabor do vento
sou tal qual as folhas outonais em queda livre,
cerro as janelas d'alma, deixo que o ar puro me invada,
respiro, absorvo, colho com as mãos o suor das nuvens
que me saúda molhando a fronte, em pequenas gotas orvalhadas.

Misturo os sons, embaralho os tons,desenho mil sóis,
gorjeios de pássaros viram girassóis que viram botões
botões de flor, que se abrem em coachos de pequenos batráquios,
pirilampos iluminam o furta-cor das flores, que perfumam as gotas
que molham meus pés sobre a terra fofa.

Da terra me vem o aroma fresco da chuva anunciada pelas gotas serenas,
da casa me vem o sabor através da fumaça cheirosa, dos negros grãos,
que as negras mãos trataram e destilaram em pano alvo e grosso,
tecido, costurado, encaixado no bule espelhado pelas mesmas mãos.
Na copa frondosa do pinheiro, vida que se faz anunciada.
O pequenino ninho guarda cuidadosamente o que será uma dádiva,
a noite cai, a casa se acomoda, e o novo dia aguarda ansioso.

Desperta-se ao som do cantor mor, garboso e viril,
e ao aroma da noite orvalhada que se vai no encalço do vento.
No pinheiro altivo e orgulhoso, ouve-se o novo som do novo dia.
Vida que salta aos olhos, milagre da natureza, amor em forma de beleza.

Como são lindos os filhotes de beija-flor.










terça-feira, 16 de outubro de 2007

O último poema



Ouve amor?
É nossa canção.
Dança comigo agora
cola teu corpo ao meu
e, de olhos fechados
sente-me arder
na infinita alegria
de me saber tua.
Toma meus lábios.
Dá-me t...
Uma lágrima incontida deixa cair-se sobre a folha, manchando as letras e interrompendo a leitura. As mãos ocupadas nada podem fazer. Numa delas o diário, pesado demais para tanta fragilidade, e a outra, segura com carinho a mão de quem foi durante cinquenta anos seu companheiro de versos e de vida, mão cansada e marcada pelo tempo. Fraca, flácida e de uma palidez translúcida, mas quente o suficiente para uma última carícia.

Um sussurro. Continua meu amor, só mais este.
Os olhos marejados voltam-se para o papel, e a voz agora mais fraca continua o poema:
Dá-me tua língua
sedenta de mim.
Mergulha-a na minha boca
sorvendo todo mel.
Deita-me em ti
deixa aninhar-me em teus braços
acalanta-me agora.
Prepara meu corpo que é hora
de possuir-me.
Só tu tens esse direito
só tua sou de bom grado.
Vem com tua paixão ardente,
transforma meu corpo quente
na tua última morada.
Vem meu amado.
Um arrepio, um aperto forte no peito, quase uma súplica, trazem um sentimento de medo, dor, tristeza e saudades.
O som agudo e a linha reta do monitor cardíaco, confirmam que a poesia acabou. Ela fecha o diário, segura firme a mão já sem vida, mas que conserva ainda seu calor, e verte. Não lágrimas, mas versos.



sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Menos um

Terminou a parada, cada um pro seu lado, os home no encalço.
Havia uma pedra no seu caminho, no seu caminho havia uma pedra.
Já na delegacia, machucado pelas "pedras" do caminho, tinha que dar o serviço. Seu silêncio custaria muito caro.
Depois de alguns dias, algumas escoriações, fraturas, e traumas, estava de novo nas ruas. Entregue a própria sorte. Sorte seria se tivesse tempo de falar do que não foi falado.
Não teve.
O projétil, sem origem certa, tinha destino certo, certeiro. Veio num zunido, e com um filme, que em segundos o faria voltar ao passado. O seu, a única coisa da qual tinha a posse.
Lembrou-se das peladas no campinho, ao lado do lixão. Da primeira namorada, dos beijos quase sempre roubados, como tantas outras aquisições ao longo de sua pequena história. Lembrou-se do primeiro porre, o primeiro de muitos outros que vieram, seguidos de muitos outros deslizes. Baseados, carreiras, cachimbos, alucinantes, alucinados, alucinóginos.
Lembrou-se da velha mãe surrada pelo velho pai, surrado pelo filho, que era surrado pelo nada da vida. Que de tão cansados, (pai e mãe), ainda sentiam pena daquela pobre vida perdida. Lembrou-se do filho...um projeto ainda. O primeiro de uma vida.
Nenhuma lágrima, nenhum arrependimento.
Apenas um suspiro, o último. Aliviado.
Menos um.

domingo, 30 de setembro de 2007

Espelho, espelho meu.


Há certos dias em que parecemos ser outra pessoa ao acordar.
Bel era uma mulher comum, ao longo dos seus 37 anos já havia passado por muitas situações difíceis, e outras tantas insuportáveis. Agora, vivia um momento de calmaria, porém, uma rotina diária que parecia não mudar nunca. Era sempre o mesmo pálido, o mesmo “sem cor” todos os dias.
Cumpria uma rotina uniforme. Levantava-se as seis, tomava um rápido café, pretinho, básico, sem acompanhamentos, e saía para o trabalho. Era responsável pelo setor de relacionamentos de uma empresa de médio porte e morava sozinha já há algum tempo.
Naquele dia Bel acordou com uma energia diferente, uma vontade imensa de sentir-se bela, um desejo quase incontido de viver intensamente.
Olhou-se no espelho, com o qual não mantinha uma relação muito amigável, e viu-se com outros olhos, desejou ser vista daquela forma pelas outras pessoas, e foi ao guarda-roupa disposta a escolher algo que valorizasse o que havia de belo e atraente em seu corpo. Escolheu uma saia estilo secretária, justa, preta, um pouco abaixo dos joelhos, que deveria ser acentuada pela blusa branca, de seda fina e um transparente sutil e ao mesmo tempo revelador. Por baixo da blusa, um lingerie delicado e sensual, branco, que deixava à mostra o colo, bem definido. Calçou um scarpin preto, discreto, maquiou-se de forma sóbria, porém destacando bem os lábios grossos e carnudos, típicos de sua afro-descendência.
Bel havia a tempos optado pelo uso do metrô e do ônibus, já que morava numa grande capital, São Paulo, e de carro teria que enfrentar todos os dias um trânsito irritante e estressante, para o qual ela não tinha a menor paciência. Apesar da lotação dos ônibus, ela não se importava. Gostava de ter os olhos livres para observar as pessoas, os olhares, a mecânica quase incompreensível de uma grande cidade.
O ônibus como sempre lotado, fazia transpirar cada centímetro de seu corpo, e, quase sem notar, aquela situação lhe fazia imaginar coisas, os quarenta minutos de viagem tornavam-se intermináveis quando sua imaginação alçava vôo.
Sonhava com encontros românticos, uma paixão avassaladora, como as que costumava ler nos romances que adorava, com um amor digno dos grandes poetas, mas com pitadas de sensualidade e erotismo, que lhe causavam arrepios. Era uma mulher intensa e cheia de sonhos.
Sem que se desse conta, numa das paradas do ônibus, alguém que entra lhe chama a atenção de forma especial. Um homem alto, forte, de uma morenice encantadora. Uma beleza incomum, sem os tons da moda, mas com algo que mexia com sua imaginação. Talvez o olhar, que parecia ter um brilho especial, terno, suave, e prendia a atenção de uma forma estranha lhe fazendo sentir arrepios. O aperto do lotação fez com que aquele estranho viesse parar bem perto dela, ficando logo atrás; era possível sentir sua respiração, seu corpo quente, e foi impossível conter a excitação que aquilo lhe causava. Novamente os arrepios.
Numa viagem longa assim, em uma cidade como São Paulo, muita coisa pode acontecer. De repente, uma chuva forte, o céu parece desabar bem típico do clima da cidade. Bel descia num ponto meio distante do trabalho, teria que andar um pouco debaixo daquele temporal, e chegaria toda molhada; uma pena depois de toda aquela produção. Dias assim lhe fazia lamentar por não usar o carro.
Ao se aproximar do ponto, seu companheiro de viagem, aquele estranho encantador,percebe que Bel dera o sinal da parada, e pergunta ao seu ouvido, quase sussurrando: “Você vai descer nessa chuva?” Novamente os arrepios, ela não conseguia responder, estava atônita com o contato inesperado, no máximo consegue responder um sim acenando com a cabeça. Bel vai em direção à porta do ônibus, prepara-se para descer, e percebe que é seguida. Seu novo amigo, desce com ela, e, num gesto quase inacreditável, retira sua jaqueta de couro, e a coloca sobre seu corpo, cobrindo-a delicadamente, e segurando-a quase num abraço.
Olham-se por um instante, e, num rompante, beijam-se em meio à correria de dezenas de pessoas atrasadas e apressadas para começar suas rotinas. Nada pára, o movimento continua a vida continua, mas para aqueles dois estranhos os ponteiros do relógio decidem que é hora de um descanso, o Sol decide demorar um pouco mais a se levantar, e, apenas brinda o dia com lampejos dos seus raios, em meio aquela chuva repentina.
Bel lembra-se de uma das suas cenas preferidas do cinema, uma das mais sensuais que já assistira, imagina-se nela, está em êxtase, coração acelerado, pelos eriçados, um transe incontrolável.
De repente, é puxada pela mão, é levada por seu adorável estranho a um beco, um lugar feio, sujo, medonho, um refúgio excitante aos amantes insanos e inconseqüentes. Vivem ali um momento de total entrega, uma loucura jamais imaginada, mas muitas vezes desejada, por aquela mulher sempre tão sensata e centrada, cumpridora dos seus deveres e compromissos. São levados ao ápice do desejo, explodem junto num gozo incontido e jamais experimentado. Bel não sabe sequer o nome daquele homem, mas entrega-se ao deleite daquele momento como se o conhecesse a anos, e como se aquele fosse o seu momento, a sua paixão tão esperada, o seu amor que chegou finalmente.
Mas são cruelmente interrompidos por um som estridente e ensurdecedor.
Trriiimmmmmmmmmmmmmmmm!!!!!!! Maldito despertador destruidor de sonhos!
Acorda Cinderela, o sonho acabou! Hora de ir para o trabalho.
Enfim, vida que segue!

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Sobre (naturalmente) humana

Muitas vezes nos encontramos perdidos entre sombras e fantasmas que ficam arquivados na nossa memória. Nem sempre temos o resgate imediato desses registros, mas há momentos e situações que nos trazem á tona esses fragmentos, estilhaços, restos, que foram um dia afundados e, pensava-se, estarem para sempre esquecidos no mar das nossas lembranças.
Fui criança caseira, menina tímida e acanhada, criada nos moldes antigos e reservados da uma família humilde e politicamente correta.
Até os cinco anos, vivi num bairro simples, na cidade de Santo André (ABC paulista), vêm daí os meus primeiros fantasmas.
Numa rua com muitas crianças, uma época em que não se fazia muito calor naquela cidade, nas poucas e raras noites quentes, ou amenas, reuniam-se (as crianças) na calçada para brincar.
Passa anel, telefone sem fio, balança caixão, histórias de horror! Como era gostoso e ao mesmo tempo aterrorizante falar em fantasmas, almas penadas, monstros. Quem nunca teve esse gosto mórbido, que solte o primeiro grito, ou o primeiro uivo!
Não podia faltar entre as crianças daquela época, os mitos, as lendas, as histórias que os pais contavam quase sempre a fim de abrandar as almas inquietas e sapecas dos filhos.
Na nossa rua, no começo (ou no fim), nunca sei onde começa ou termina uma rua, havia um casebre muito velho, aparentemente abandonado, num terreno feio, todo desbarrancado e cheio de mato, onde diziam morar um velho feiticeiro mal e que não gostava de crianças.
Acho que aquele foi o meu primeiro fantasma. O segundo, veio logo após, e em conseqüência dele.



Estávamos numa dessas noites, sentados na calçada brincando, e falando do velho feiticeiro. Eu era uma das menores, devia ter uns quatro anos, mais ou menos, e morria de medo, apesar de nunca demonstrar, leonina valente que era.
Já escurecia, e mamãe nos chamou para entrar. Aterrorizada com as histórias, e doida para entrar logo, olhei para a Lua, buscando conforto em sua luz que ainda mantinha na rua um tico de claridade. Deparei-me então com meu segundo fantasma. Para meu desespero, a bela Lua havia se transformado num monstro horrendo, com chifres, olhos vermelhos e língua de fogo. Claro que tentei contar aos outros, maiores que eu, apontando o monstro e tentando convencê-los de que aquilo não era fruto da minha imaginação, muito menos do meu pavor. Sem sucesso, fui obrigada a entrar em casa, sentindo que aqueles olhos vermelhos iriam me seguir, por onde eu passasse.
Hoje, já sei que o velho feiticeiro era apenas um homem solitário e mal humorado provavelmente por causa das agruras da sua pobre vida, mas a Lua monstruosa, aquela que nunca mais me saiu da memória, tenho certeza, não foi fruto da minha imaginação fértil, muito menos do medo que eu fingia não ter, foi real, eu vi, e foi meu primeiro contato com o mundo sobrenatural, e o último, eu espero.



Situações diversas e muito além da imaginação de uma menina “avoada”como eu, fizeram com que nos mudássemos para o interior, onde moravam meus avós maternos.
Ali tive meu terceiro contato com o mundo sobrenatural, ou o que eu julgava sê-lo.
Família católica e tradicional, em cidade do interior, raramente recorria a médicos, sem antes buscar ajuda entre rezadeiras e benzedeiras. E estas foram, por algum tempo, fantasmas da minha meninice.


Morria de medo daquelas pessoas, que ficavam me olhando, sussurrando um não sei que de coisas, passando folhinhas pelo meu corpo, me fazendo o sinal da cruz na fronte, aspergindo com uma folha molhada a minha cabeça e a minha roupa. Seu Chiquinho, dona Zulmira, Felipe Manhoso, pessoas estranhas e cheias de mistérios.
Hoje, levo meus filhos ao médico, e tenho que fazer um relatório detalhadíssimo, se quiser que o Doutor chegue a um diagnóstico razoável e aceitável. Naquela época, levava na benzedeira, e pronto, “tirava com a mão”, como diziam os mais antigos.


Fé da rezadeira? Ou fé da minha mãe? Ou uma conjunção de crenças e ungüentos, que possuíam um misterioso poder curativo?
Ninguém sabe, ninguém viu, o certo é que essas personagens me assustavam profundamente.


Hoje, compreendo que existem pessoas realmente iluminadas, com tal pureza de espírito e amor fraternal, que são capazes, sem nenhum conhecimento intelectual, de compreender os mistérios e segredos desse universo que rege nossa existência, a tal ponto que chegam a exercer sobre ele, certa soberania, curando, consolando, trazendo paz e alento em momentos de dor e sofrimento. E, sem pedir nem exigir nada em troca, a não ser, que se tenha fé nesse poder curador e restaurador, a quem damos o nome de Deus.
Recentemente estive á procura de uma dessas rezadeiras. O descontentamento com nosso sistema de saúde, e os lampejos de fé, herdados das anciãs da família, me faz por vezes resgatar o passado. Sem sucesso. Elas não existem mais, ou quase não existem, assim como a fé, que parece escoar entre nossos dedos, fugir aos nossos olhos, abandonar nosso coração cansado.



Em reuniões de família, eram comuns os causos e histórias do passado. Muitas dessas, sobrenaturais e cheias de mistério. Como a história da Pisadeira, contada por uma das tias. Meu quarto fantasma.


Uma alma penada, que, se fizéssemos estripulia, viria nos visitar a noite. Chegava arrastando os pés, e balançava violentamente a cama. A única maneira de afastá-la, era rezando um creio em Deus pai (credo), até o final. Se parássemos no meio do caminho ela não iria embora, teria que rezar até o fim. Enquanto a tia contava, ficávamos de olhos atentos, assustados, morrendo de medo.
Chegava à hora de dormir, suspense, terror, medo. Por muito tempo senti minha cama balançar quando ia me deitar, e rezei, pelo sim e pelo não, vários credos. Nem sempre chegava ao fim, vencida pelo sono, mas conseguia espantar a tal alma que me atormentava e me tirava o sossego.



Ainda hoje tenho meus fantasmas pessoais e secretos. Sombras que passam de relance aos meus olhos, pequenos sons que vêm não se sabe de onde, geralmente à noite, quando todos dormem, e ficamos apenas eu e meus pensamentos. Nada que me tire mais o sossego, ou o sono, ou chegue a me atormentar a alma, apenas companheiros silenciosos nos momentos de solidão.



Com a entrada na adolescência, vieram os mitos da escola. E com eles, o mais conhecido e tradicional: a loira do banheiro. Meu quinto fantasma. Uma moça loira que havia sido assassinada em uma escola. Desde então, passou a assombrar os banheiros e os alunos, com suas aparições misteriosas, seu aspecto medonho, cheia de algodão no nariz, e sangrando muito. Algodões espalhados pelos banheiros, molhados em algum líquido vermelho, compunham um cenário medonho e aterrorizante, que confundia os mais medrosos, e criava um clima entre os alunos, que ia do medo à zombaria.
Mesmo já sabendo que se tratava de uma lenda, um mito, não custava nada examinar os banheiros antes de acomodar-se, e, quando possível, a prudência e o pavor, faziam-nos optar pelas turminhas. Assim, unia-mos nossos medos, e enfrentávamos a tal assombração. O que muitas vezes, acabava tornando-se uma boa farra.
Ainda hoje se fala na loira do banheiro. Porém agora, mais em tons de zombaria do que pavor. As assombrações de hoje são um pouco di
ferentes. Mas volto a elas depois.



Com a entrada na puberdade, a maturidade vem acompanhada de alguns fantasmas reais. Passa-se aqui, a entender melhor certos percalços da vida, e a sentir mais as perdas. As mortes de entes queridos passam a fazer parte das nossas lembranças, e a compor um sentimento de medo do desconhecido. Minha sexta experiência sobrenatural vem com essas perdas.
Perder alguém que se ama, e, de quem vai sentir-se a ausência como uma lança, a estocar o peito, nos faz muitas vezes desejar esse contato. Algo que nos traga um consolo, que torne menores a dor e a saudade, que nos dê sinais de um possível reencontro, que nos aquiete a alma e nos faça embalar essa dor, até que ela cesse, ou pelo menos, torne-se suportável.
Minha primeira perda realmente sentida vem com a morte do avô materno. Alguém cuja presença em minha vida, teve um valor sem medidas, mas do qual só me dei conta, após sua partida.
Por muitas vezes, desejei este encontro. Meu desejo suplantava o medo do deconhecido, do sobrenatural; o encontro não aconteceu, pelo menos não no plano material (ou imaterial), mas a alma aquietou-se, as lembranças boas se sobrepuseram ao sentimento doído da perda, e aos poucos, o coração tem aprendido a sentir essas dores, sem ressentir-se da crueldade do destino.



Com o passar do tempo, com a maturidade que chega muitas vezes a fórceps, feito um parto forçado e traumatizante, nossos fantasmas tomam forma e materializam-se. Perdem a inocência e tornam-se nossos inimigos reais.
Diante da violência do mundo moderno, e, vivendo num clima de insegurança e medo reais, conheci meu sétimo fantasma. Talvez o mais real e pavoroso.



Vivi com minha família momentos de extremo terror, sessenta minutos de medo, pelos quais vi passar o filme da minha vida, nos quais resgatei inconscientemente, grande parte da minha fé, (em Deus), e onde também perdi um bom tanto dela (nos homens).
Um assalto à mão armada, felizmente sem conseqüências mais graves, mas que nos trouxe um medo lactente, um clima de insegurança insuportável, e uma tristeza irreparável pela decadência do amor e respeito ao ser humano.
Por muitos dias dormimos amontoados, os cinco membros da família, num único quarto, de portas fechadas, passamos a nos recolher mais cedo, hermetizamos nossa casa com cadeados em todas as janelas e trancas nas portas, passamos a desconfiar das nossas próprias sombras. Senti saudades do velho feiticeiro, da lua tenebrosa, da loira do banheiro.
Felizmente, aos poucos a sensação de medo foi abrandando, mas não sem antes tomarmos como providência emergencial, a contratação de um guardião valente que nos protegesse do perigo, no caso, uma guardiã, uma cadelinha simpática e sem pedigree, amiga e co
mpanheira, que amenizou um pouco do pavor, e trouxe um tanto a mais de sossego à nossa casa.
Ao contrário dos outros fantasmas, este, não vai embora, não vai tomar forma de lembrança do passado, faz parte dos tempos modernos, e vai continuar a nos assombrar pelo resto de nossas vidas, ou, até que um milagre faça tocar o coração do homem, a ponto de fazê-lo perceber quanta riqueza se perde, quando se coloca o ouro (de tolo), acima dos bens naturais e preciosos da alma humana.



Mas os tempos modernos também nos trazem outros tipos de fantasmas, aqueles com os quais se pode vencer a teimosia e empáfia dos filhos, ameaçando e aterrorizando, ou por outra, tirar o sossego de pessoas normais, como donas de casa, totalmente dependentes de certos confortos da vida moderna.



Prive o homem moderno de suas necessidades materiais, e pronto! O terror está instalado. Tire o celular do trabalhador, da dona de casa, do estudante, e pimba, que medo! Tire o computador dos filhos, da dona de casa, do executivo, advogado, professor, e pow! Medo!
Meu cunhado vem para mim e diz: “Mônica, o pc está precisando formatar!” Isso significa alguns dias apenas sem ele, nada grave.
Um piscar de olhos, uma fração de segundo, e será preciso um pé de cabra para me desgrudar do bichinho. Deixa o coitado cheio de vírus, lento feito uma tartaruga, maluco de pedra, mas não o tire de mim, não me prive da sua companhia, isso não.
Como disse Vanessa da Mata: “Eu tenho medo do escuro, tenho medo do inseguro, dos fantasmas da minha voz!”.


Rivaldo Barboza é o autor da ilustração deste texto, chamada Ghost. Veja mais aqui.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Viver é uma arte!



A arte imita a vida ou a vida imita a arte? Nunca
sei ao certo. O mais certo, no entanto, é que alguém deve ter mexido no meu roteiro.

Sequestraram o meu príncipe encantado, ou então
caçaram o sapo, que deveria vir a ser o tal, ou, roubaram o bilhete premiado, cancelaram o baile, deram o endereço errado à fada madrinha, ou deram um tombo na figurante, ao invés de jogar à mim, aos pés do galã.

Vai ver até, que me confundiram com a vilã, e me
deram o fim trágico e malfadado que a ela caberia, e, nesse caso, valha-me Deus...o pior ainda está por vir. Acho melhor interromper as filmagens, cortar a verba, assassinar o diretor e o roteirista...convém nem saber como vai acabar essa história.

Ou, talvez o melhor mesmo seja acordar do sonho, e
compreender, que nem uma coisa nem outra, na verdade, VIVER é uma arte, e o final feliz, nada mais é, do que uma consequência para quem soube escrever bem seu roteiro.

Pois é, prancheta na mão, canetinha na orelha,
olhos atentos na vida, e vamos lá...tenho um roteiro inteirinho a reescrever.

Que os Zeffirellis, Scorceses, Glaubers,
Babencos, Almodovars, e os demais monstros da sétima arte, me iluminem, me inspirem, e tenham pena de mim.

Amém.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

sábado, 1 de setembro de 2007

Hoje eu pensei em flores...lembrei-me de uma música, e de um vídeo que vi há muitos anos atrás...a música tá aqui...o vídeo vem depois...a beleza tem contrastes muitas vezes chocantes!





Flores
Marisa Monte/Composição: Toni Belotto

Olhei até ficar cansado
De ver os meus olhos no espelho
Chorei por ter despedaçado
As flores que estão no canteiro...
Os punhos e os pulsos cortados
E o resto do meu corpo inteiro
Há flores cobrindo o telhado
Embaixo do meu travesseiro...
Há flores por todos os lados
Há flores em tudo que eu vejo...
A dor vai curar essas lástimas
O soro tem gosto de lágrimas
As flores têm cheiro de morte
A dor vai fechar esses cortes...
Flores!Flores!
As flores de plástico
Não morrem...

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Relação custo/benefício : a vida ensina essa lição.

Viver custa muito caro.
Vestir-se custa muito, comer, andar de carro, andar de ônibus, trem, metrô, trabalhar, tudo muito caro.
Procurar emprego: custa caro.
Cuidar da saúde: custa caro.
Ficar bonito, melhorar a auto-estima: custa muito caro.
Criar os filhos: custa caro.
Ter filhos: custa caro.
Estudar: custa muito caro.
Viajar, ir ao cinema, tirar férias: custa muito caro.
Ir ao dentista, comprar um óculos, remédios: tudo muito, muito caro.
Morrer: custa caro!
Quanto vale tudo isso? O que se ganha, com todo esse gasto?
Vale o tempo de uma vida, que se vai, contra nossa vontade, contra a vontade do nosso relógio, pois não temos hora marcada para essa partida; vale um tempo precioso, muitas vezes gasto com valores pequenos.
Quanto custa um abraço? Um afago, uma palavra de conforto, um gesto amigo?
Custa o tempo de um "abrir e fechar" de braços, o tempo de um movimento labial, o tempo de um olhar caridoso e confortante,custa o tempo de um simples gesto.
E quanto vale? E como vale!
Vale um conforto na hora certa, vale uma lágrima a menos derramada, vale um dia a menos, ou horas, não importa, de tristezas, angústias, solidão.Vale momentos de alegria, vale a segurança, um abrigo, um sorriso de alívio.
Me dê seu abraço, receba o meu...e a vida em preto e branco, ganha cor e muito mais valor!


Abaixo, uma história real e emocionante, vale a pena ler e ver o vídeo.

"Sou alguém em busca de um abraço...o abraço que me dá vida, o abraço que me aquece...o abraço que me cura as feridas...o abraço que me excita...o abraço que acalanta os meus sonhos...o abraço que me salva...me redime...me faz e me desfaz!"

Onde tudo começou

Há um ano atrás, Juan Mann era só um homem estranho que ficava parado no Pitt Street Mall em Sydney, Austrália oferecendo abraços de graça para as pessoas que passavam pelas ruas. Um certo dia, Mann ofereceu um abraço a Shimon Moore, o líder da banda Sick Puppies e, desde então se tornaram bonsamigos.
Um certo dia Moore decidiu gravar Mann fazendo sua campanha por "Free Hugs". À medida que o Free Hugs atingiu proporções maiores, o conselho da cidade tentou banir a campanha . Então Mann e seus amigos fizeram uma petição com mais de 10.000 nomes apoiando a campanha do abraço de graça.
Quando a avó de Mann morreu, Moore decidiu mixar o vídeo que ele tinha feito do Free Hugs com a música All the Same, que ele havia gravado com a sua banda Sick Puppies.
Vale a pena conferir o vídeo. Um filme que apresenta uma verdadeira história que inspira humanidade e esperança.
Algumas vezes um abraço é tudo que precisamos.
Free Hugs é uma história real, sobre um homem que acreditava que sua missão era trazer alegria na vida das pessoas através de um abraço.
"Note que o vídeo é em preto e branco e, só ganha cor após Juan Mann receber o seu primeiro abraço."

domingo, 19 de agosto de 2007

Importa o que fica
A festa acabou...acabou o bolo, acabaram os brigadeiros, os salgadinhos, o vinho, o guaraná...todos se foram, fecham-se as cortinas, apagam-se as luzes, e a vida volta ao normal.
Normal? Nem tanto...de tudo, algumas coisas ficam...fica a certeza de que foi uma festa, virtual, sim, mas linda...o bolo era virtual, os brigadeiros e salgadinhos eram virtuais, o vinho era virtual(melhor assim), mas nem tudo era virtual...os amigos eram reais, o carinho era real, a satisfação de estarmos juntos, mesmo que distantes, era real.
E é isso que realmente importa.
Fica a certeza, de que não há limites em tempo nem em espaço, prá esse dom divino chamado "Amizade"...fica a certeza de que ninguém é uma ilha, e que temos a necessidade de estarmos entre pessoas queridas, que compartilhem das nossas alegrias, das nossas tristezas, da nossa vida, sem pedir nem exigir nada, apenas oferecendo sentimentos bons e tão significativos para cada um de nós.
Fica a certeza, de que somos imperfeitos, incompletos, e não vivemos acima do bem e do mal, erramos, consertamos, caímos, levantamos, sorrimos, choramos, e, se temos amigos, eles são nossas alavancas em cada um desses momentos.
Para mim, fica a certeza de que estive entre pessoas especiais, que tornaram meus 37 anos, bem mais significativos hoje, bem mais agradáveis e bem mais leves.
E é a Deus que agradeço por isso, pela beleza da amizade e pelo carinho que pude receber dessas pessoas tão queridas nesses dias.
De volta à vida real, mas com um motivo a mais para agradecer, sempre.

sábado, 4 de agosto de 2007

A descoberta da pólvora

Nunca gostei de ler jornal. Sempre me informei básica e superficialmente através da imprensa falada.
Ler jornal é uma arte, aqui, não cabe a máxima "não requer prática nem tão pouco habilidade.", pelo contrário, requer e muito.
O jornal é imenso, bem diferente de um livro ou revista. Não cabe confortavelmente nas mãos, é desajeitado. Ao contrário do livro, não tem capa dura, é mole, se não tiver habilidade manual, a leitura mais parece uma volta de tobogan, ele cai, se desmantela, as letras acabam se embaraçando, uma comédia. Não tem aquela colinha especial que garante as folhas todas juntinhas e bem grudadinhas, pelo contrário, são todas bem soltas, experimente ler seu jornal no banco do ônibus, ou no consultório médico, enquanto espera; uma verdadeira aventura. Se a pressa lhe impede de lê-lo do começo ao fim, e vc é obrigado à ir direto aos assuntos que mais lhe interessam, a menos que estes estejam nas primeiras páginas, desista; até que vc chegue na página escolhida, seu jornal já era, agora o que vc tem nas mãos, é um grande emaranhado de folhas e notícias, desorganizado e amassado.
Isso sem falar naquelas publicações mais simples, menos conhecidas, com um papel de baixa qualidade, que, se vc é daqueles que tem aquele hábito super, hiper, mega higiênico, de lamber os dedos para folhear as páginas, vai ter que carregar com você um lencinho, para limpar os dedos depois da sua leitura. Aquela tinta insiste em marcar território.
Já vi algumas pessoas, confortavelmente sentadas, abrir seu jornalzão, com a maior categoria, lê-lo do início ao fim, sem perder a classe, folheando calmamente, passando folha por folha, como se estivesse lendo um livro de capa dura e altíssima qualidade.
Será que existe um manual? "Aprenda a ler seu jornal, em cinco fascículos. Curso prático e rápido."Ou será que são anos e anos de prática?Não sei, só sei que acabo de descobrir que meus problemas acabaram.(ui)
Prá tudo, ou quase tudo na vida, há solução, e a cibernética tratou de aumentar essa estatística. Jornal virtual, ou on line, ou sites informativos, não importa, são uma invenção genial. Prático, confortável, atualizado, não requer prática nem tão pouco habilidade.
Continuo não gostando de ler jornal. Assim como meu remédio da pressão, que é difícil de engolir, e me lembra a todo instante que tenho uma doença crônica, e blá, blá, blá...são frios e realistas demais, difíceis de engolir, mas são necessários e imprecindíveis.
Eureka! Descobri a pólvora!

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Uma prece pela paz!
Marias, Joãos, Serafins e afins...são milhões e milhões de anônimos e Antonios, voltados e ligados em Diego, Lais, Jade,Edinanci,Daniela, Daiane, Janete, e tantos outros não anônimos, mas tão importantes quanto, que fazem, em poucos dias, esses tantos anônimos sofridos e por vezes até esquecidos, lembrarem-se de que uma nação, por mais injusta e cruel que possa parecer, é um pedaço de cada um de nós, uma parte que nos cabe, um coração que pulsa e vibra e que precisa também de atenção, carinho, cuidados, amor incondicional.É como uma mãe que erra, que se descuida, que se estressa,como qualquer ser humano, mas que jamais deixa de amar e dar sua vida, por seus filhos.Neste vídeo, que mostro aqui, um dos momentos mais bonitos e significativos, na abertura dos nossos Jogos Panamericanos, justamente no Rio, uma prece pela paz...um momento em que a união de povos de vários países, e os olhos do nosso povo voltados num só horizonte significam prá mim, e prá tantos, que assim como eu ainda acreditam nessa nação, um lampejo de esperança, um rainho de Sol, uma luzinha pequenininha mas que ainda brilha, no fim desse túnel imenso que é a nossa vida.Fica aqui, minha homenagem à esses guerreiros e guerreiras, que levantaram e estão levantando, com orgulho, nossa bandeira nesses dias, e que ajudam a manter acesa essa chama de esperança e fé em nosso país.

PAN 2007 - PAZ - Chico Cesar

terça-feira, 31 de julho de 2007

"Seja com a simplicidade da flor do campo, a beleza de rosa, ou com a exuberância da orquídia...
Faz da tua vida um jardim, e dos espinhos a escada pro seu sucesso!"


Que Fim Levaram Todas As Flores?
Secos e Molhados

Que fim levaram todas as flores?
Que o preto velho me contava
Que fim levaram todas as flores?
Que a rainha louca não gostava
Que a lapela morta carregava
Que o olhar de todos me lembrava
Que fim levaram todas as flores?
Que qualquer coisa não estragava
Em qualquer dia que podia
Com grande amor e alegria
Que fim levaram todas as flores?
Que a criança às vezes me pedia

segunda-feira, 9 de julho de 2007


Um tesouro...uma busca!

De repente, as palavras tornaram-se escassas...os pensamentos vêm e vão, misturam-se, confundem-se, chocam-se...e as palavras perdem o sentido, ficam vazias, não vão à lugar nenhum!
Conflitos de sentimentos, sensações, desejos, atitudes, verdades, passam a povoar um coração atordoado pelo medo de não ser capaz de compreender-se e fazer-se compreender.Vontade de ganhar o mundo, vencer batalhas, derrotar inimigos da vida, dos sonhos, e ao mesmo tempo, uma vontade imensa, de isolar-se em si mesmo, aquietar-se, fugir, fingir não ser responsável por nada, fingir não ter que ser, perder-se no vazio e no escuro, e não mais encontrar-se.
O bicho Homem, é um ser tão complexo, que muitas vezes, chega a fazer-se misterioso e desconhecido a si próprio.
E assim a vida segue seu rumo natural...ora fazendo sentido, mostrando suas belezas, encantando quem por ela passa, e quem à ela dedica seus olhos e sentidos...ora se fazendo de difícil, enganando, enredando, confundindo, fazendo falhar os sentidos e parecendo ser um grande e complexo labirinto, com caminhos falsos, perigos constantes, e um belo e desejado tesouro, ao final da jornada.
E o Homem...que tanto deseja esse tesouro, segue em sua busca sem fim, certo de que um dia será merecedor desse prêmio tão cobiçado!FELICIDADE...FELICIDADE...serás tu que eu procuro????