Somos assim: somos o que pensamos, o que sentimos...e somos acima de tudo, aquilo em que acreditamos!
Nossos ídolos são nossos espelhos...refletem nossa alma, e nos levam ao encontro de nossos desejos, nossos sonhos, nossas fantasias, nosso eu mais profundo...e nos tornam muitas vezes mais fortes, porque acreditamos neles!
Somos assim: sedentos por nos apaixonar, por acreditar, por nos sentir vivos...e é isso que nos torna seres tão incrivelmente sedutores e apaixonantes!

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

As cores do meu desenho



Pintaram de azul meu infinito,
o espaço onde bato minhas asas,
onde lanço meu grito,
onde me faço, me desfaço, descompasso,
e descanso dos meus fiascos.

Pintaram de rosa minha infância.
Minhas memórias são pink e punk,
infantis e infantes,
fragmentos de instantes, de momentos,
prontamente em posição de sentido!
Ou sem.
Sentido.

Pintaram de marrom o meu chão.
Minha raiz, meu pé, minha diretriz.
Um quase negro, quase escuro, obscuro,
mais vivo do que morto,
mais terra fofa do que cova funda.
Mais chão do que abismo.
Mais eu do que eu mesma.

Pintaram de verde minha esperança.
O verde da minha verdade, que acredita,
o verde da minha saudade, que espera,
o verde que eu quero ver,
antes que de amarelo se pinte,
e deixe de ser.

Pintaram de amarelo o meu sol.
Meus raios, meus fragmentos,
pedaços dos meus ais e lamentos,
amarelo, meu ouro,
amarelo, meu tesouro.
Amarelo de mim, energia cósmica.
Em mim.

Pintaram de vermelho minha paixão.
Pulso que pulsa em mim.
Sangue que ferve, veias que saltam.
Meu carmim.
Fogo, explosão, confusão.
Vermelho tenso, intenso,
vermelho insensato,
vermelho que seduz e induz.
Vermelho de fato.

Pintaram de preto meu pensamento.
Meu tormento e meu desalento,
negros são.
Como negras são as memórias passadas,
da história surrada, das surras levadas,
pela negra verdade,
pelo negro juízo,
do que é negro, sem que negro se pareça.
E, o que de fato negro é,
a pele, a cor, a raça,
maltratos traz de herança, e de graça,
pela negritude cruel da raça.
Humana!

Pintaram de branco minha paz.
Minha fé, meu sossego, minhas vontades,
meus desejos.
Brancas são as manhãs de chuva,
brancos são os dentes entreabertos do contento,
brancos são meus sentimentos.
Puros ou impuros,
livres ou isentos,
mas brancos apenas pela ausência do preto,
pela alva aparência do que em mim se desenha.

E de muitas cores pintaram minha história.
Só esqueceram de colorir minha palidez.
O transparente sem graça do talvez.
O não sei, o quase nada, o mais ou menos,
melhorado, mas nunca acabado.
O inseguro, insensato, inconstante,
o nunca de fato, mas sempre sem razão.
De ser.
Não obstante.


quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Cálice

Segue abaixo uma releitura da música Cálice de Chico Buarque, pela banda Dr. Lao.
Vale à pena!

Cálice - pela banda Dr. Lao

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Fala aí ó pá!

Nossa língua tem artimanhas,
Nossa língua tem artimanhas
tem pernas, feito uma aranha
que arrrranha, se emaranha
enreda, envereda
faz, desfaz e se refaz.
Entre sons e tons diversos
entre sentidos inversos
entre parentes(es)tranhos
entre versos e reversos
tem contextos complexos
tem textos desconexos
tem estranhos sotaques
metáforas, antíteses, sintaxes.

Brincadeira de criança
feito menina ela dança
floreia, canta, arrasta
corre, bole, faz pouco
desdenha, desenha e arrasa
faz fogo virar fumaça
e fumaça virar fogo.
Só quem não se encanta
com essa menina faceira
quem não entra na brincadeira
perde metade da jornada
ou a jornada inteira.

Tem óchentes arrassstadoss
tchês e báhs cantarolados
um uai sô, de minerin
e aí mano, tá ligado fiii??
A poRta, a toRta, entoRta
arraxxxta, o malandro praieiro
faz da língua dessa gente
um grande e delicioso tabuleiro
onde a baiana arretada
mistura sua graça e gingado
à morenice bronzeada
da bela carioca faceira
com uma pitada de garra
da paulista e da mineira.
O guri do Sul se agarra
no leitE quentE vizinho
os capixabas da bera
não podem ficar sozinhos
vêm junto nessa empreitada
com outros tantos sotaques
dessa língua bem falada.
Goianos, matogrossensses
amazonenses, tocantinenses
pérrrnambucanos, cearenses
alagoanos, piauienses
maranhenses, sergipanos
rio grandenses, acreanos
rondonienses, Roraimianos
ou seria roraimenses?
Que mistureba danada!
Faz dar nó em pingo d'água
essa tal língua arretada
que tem nas suas raízes
o "ó Pá" detrásss dosss montessss
uma riqueza de formas
histórias, cantigas, e rimas
beleza em forma de versos
relatos de tantas vidas
nas linhas e traços imersos
em tantas lutas perdidas.



Báh guri, que lindeza de língua é essa?
Uai sô, num é que é bunita mess?
Ôche! É prá lá de porreta essa danada!
Aê mano, se liga nessa parada, fmz?
Eita, que essa língua é abençoada!
Fala aí ó pá! essst'é a língua purtuguesa.







domingo, 30 de setembro de 2007

Espelho, espelho meu.


Há certos dias em que parecemos ser outra pessoa ao acordar.
Bel era uma mulher comum, ao longo dos seus 37 anos já havia passado por muitas situações difíceis, e outras tantas insuportáveis. Agora, vivia um momento de calmaria, porém, uma rotina diária que parecia não mudar nunca. Era sempre o mesmo pálido, o mesmo “sem cor” todos os dias.
Cumpria uma rotina uniforme. Levantava-se as seis, tomava um rápido café, pretinho, básico, sem acompanhamentos, e saía para o trabalho. Era responsável pelo setor de relacionamentos de uma empresa de médio porte e morava sozinha já há algum tempo.
Naquele dia Bel acordou com uma energia diferente, uma vontade imensa de sentir-se bela, um desejo quase incontido de viver intensamente.
Olhou-se no espelho, com o qual não mantinha uma relação muito amigável, e viu-se com outros olhos, desejou ser vista daquela forma pelas outras pessoas, e foi ao guarda-roupa disposta a escolher algo que valorizasse o que havia de belo e atraente em seu corpo. Escolheu uma saia estilo secretária, justa, preta, um pouco abaixo dos joelhos, que deveria ser acentuada pela blusa branca, de seda fina e um transparente sutil e ao mesmo tempo revelador. Por baixo da blusa, um lingerie delicado e sensual, branco, que deixava à mostra o colo, bem definido. Calçou um scarpin preto, discreto, maquiou-se de forma sóbria, porém destacando bem os lábios grossos e carnudos, típicos de sua afro-descendência.
Bel havia a tempos optado pelo uso do metrô e do ônibus, já que morava numa grande capital, São Paulo, e de carro teria que enfrentar todos os dias um trânsito irritante e estressante, para o qual ela não tinha a menor paciência. Apesar da lotação dos ônibus, ela não se importava. Gostava de ter os olhos livres para observar as pessoas, os olhares, a mecânica quase incompreensível de uma grande cidade.
O ônibus como sempre lotado, fazia transpirar cada centímetro de seu corpo, e, quase sem notar, aquela situação lhe fazia imaginar coisas, os quarenta minutos de viagem tornavam-se intermináveis quando sua imaginação alçava vôo.
Sonhava com encontros românticos, uma paixão avassaladora, como as que costumava ler nos romances que adorava, com um amor digno dos grandes poetas, mas com pitadas de sensualidade e erotismo, que lhe causavam arrepios. Era uma mulher intensa e cheia de sonhos.
Sem que se desse conta, numa das paradas do ônibus, alguém que entra lhe chama a atenção de forma especial. Um homem alto, forte, de uma morenice encantadora. Uma beleza incomum, sem os tons da moda, mas com algo que mexia com sua imaginação. Talvez o olhar, que parecia ter um brilho especial, terno, suave, e prendia a atenção de uma forma estranha lhe fazendo sentir arrepios. O aperto do lotação fez com que aquele estranho viesse parar bem perto dela, ficando logo atrás; era possível sentir sua respiração, seu corpo quente, e foi impossível conter a excitação que aquilo lhe causava. Novamente os arrepios.
Numa viagem longa assim, em uma cidade como São Paulo, muita coisa pode acontecer. De repente, uma chuva forte, o céu parece desabar bem típico do clima da cidade. Bel descia num ponto meio distante do trabalho, teria que andar um pouco debaixo daquele temporal, e chegaria toda molhada; uma pena depois de toda aquela produção. Dias assim lhe fazia lamentar por não usar o carro.
Ao se aproximar do ponto, seu companheiro de viagem, aquele estranho encantador,percebe que Bel dera o sinal da parada, e pergunta ao seu ouvido, quase sussurrando: “Você vai descer nessa chuva?” Novamente os arrepios, ela não conseguia responder, estava atônita com o contato inesperado, no máximo consegue responder um sim acenando com a cabeça. Bel vai em direção à porta do ônibus, prepara-se para descer, e percebe que é seguida. Seu novo amigo, desce com ela, e, num gesto quase inacreditável, retira sua jaqueta de couro, e a coloca sobre seu corpo, cobrindo-a delicadamente, e segurando-a quase num abraço.
Olham-se por um instante, e, num rompante, beijam-se em meio à correria de dezenas de pessoas atrasadas e apressadas para começar suas rotinas. Nada pára, o movimento continua a vida continua, mas para aqueles dois estranhos os ponteiros do relógio decidem que é hora de um descanso, o Sol decide demorar um pouco mais a se levantar, e, apenas brinda o dia com lampejos dos seus raios, em meio aquela chuva repentina.
Bel lembra-se de uma das suas cenas preferidas do cinema, uma das mais sensuais que já assistira, imagina-se nela, está em êxtase, coração acelerado, pelos eriçados, um transe incontrolável.
De repente, é puxada pela mão, é levada por seu adorável estranho a um beco, um lugar feio, sujo, medonho, um refúgio excitante aos amantes insanos e inconseqüentes. Vivem ali um momento de total entrega, uma loucura jamais imaginada, mas muitas vezes desejada, por aquela mulher sempre tão sensata e centrada, cumpridora dos seus deveres e compromissos. São levados ao ápice do desejo, explodem junto num gozo incontido e jamais experimentado. Bel não sabe sequer o nome daquele homem, mas entrega-se ao deleite daquele momento como se o conhecesse a anos, e como se aquele fosse o seu momento, a sua paixão tão esperada, o seu amor que chegou finalmente.
Mas são cruelmente interrompidos por um som estridente e ensurdecedor.
Trriiimmmmmmmmmmmmmmmm!!!!!!! Maldito despertador destruidor de sonhos!
Acorda Cinderela, o sonho acabou! Hora de ir para o trabalho.
Enfim, vida que segue!